sábado, 30 de abril de 2011
poema de haroldo de campos
poema de duda machado
Imitação das coisas
Vamos, dedique-se por inteiro
às aparências, às coisas propriamente
ditas. Procure frequentá-las,
trazê-las para dentro de si mesmo,
incorporá-las dia a dia,
a cada instante,
por mais irrisório/absurdo que pareça.
Pode ser, no entanto, que você
não resista o tempo todo
e, de vez em quando, se afaste
da consistência das coisas
e se deixe levar
pelo hábito de transformá-las
em encantamento ou profundidade.
Não se perturbe. Ao persistir,
voltaremos mais uma vez a elas,
imperfeitos e concentrados
- como no amor -, decididos
a alcançá-las, embora adivinhando,
e já pouco importa, que ainda
não estamos preparados.
MACHADO, Duda. Margem de uma onda. São Paulo: Editora 34, 1997.
Vamos, dedique-se por inteiro
às aparências, às coisas propriamente
ditas. Procure frequentá-las,
trazê-las para dentro de si mesmo,
incorporá-las dia a dia,
a cada instante,
por mais irrisório/absurdo que pareça.
Pode ser, no entanto, que você
não resista o tempo todo
e, de vez em quando, se afaste
da consistência das coisas
e se deixe levar
pelo hábito de transformá-las
em encantamento ou profundidade.
Não se perturbe. Ao persistir,
voltaremos mais uma vez a elas,
imperfeitos e concentrados
- como no amor -, decididos
a alcançá-las, embora adivinhando,
e já pouco importa, que ainda
não estamos preparados.
MACHADO, Duda. Margem de uma onda. São Paulo: Editora 34, 1997.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Sorte (um poema de Hermann Hesse)
estou lendo o romance "O Lobo da Estepe", do escritor alemão Hermann Hesse, então resolvi postar um poema dele aqui.
Enquanto vives perseguindo a sorte,
não estás pronto para ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.
Enquanto te lamentas do perdido,
e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.
Só quando a todo anelo renuncias,
sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,
já a maré dos eventos não te atinge
o coração, e se acalma tua alma.
(de “Música da Solidão”, 1915)
domingo, 24 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
limite
segunda-feira, 18 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
XLIII
Um poema de Rafael Nolli
30/05/03
A poesia refugiou-se, não morreu. Incompleta, fragmentada, ela está borbulhando no mais profundo caldeirão de idéias: no peito do poeta, na voz do povo, na mais sangrenta terça-feira ou no débil gemido de uma criancinha ferida na escada.
Basta beber na fonte certa, desobstruir o obstáculo certo, delimitar e repensar os caminhos certos.
Despudorar: se o verso anunciar um hecatombe, dar ao povo, em anúncio não misericordioso, o hecatombe. Revoltar: se o verso exigir uma revolução, dar a todos a chama, o estopim, a ordem.
A poesia refugiou-se, não morreu. Ela se arma na mais verde floresta, na mais longínqua vontade, no mais profundo desejo: ela ressurgirá como um afogado de três dias que vêm à tona para feder.
* do livro Memórias à Beira de um Estopim
por L. Rafael Nolli
30/05/03
A poesia refugiou-se, não morreu. Incompleta, fragmentada, ela está borbulhando no mais profundo caldeirão de idéias: no peito do poeta, na voz do povo, na mais sangrenta terça-feira ou no débil gemido de uma criancinha ferida na escada.
Basta beber na fonte certa, desobstruir o obstáculo certo, delimitar e repensar os caminhos certos.
Despudorar: se o verso anunciar um hecatombe, dar ao povo, em anúncio não misericordioso, o hecatombe. Revoltar: se o verso exigir uma revolução, dar a todos a chama, o estopim, a ordem.
A poesia refugiou-se, não morreu. Ela se arma na mais verde floresta, na mais longínqua vontade, no mais profundo desejo: ela ressurgirá como um afogado de três dias que vêm à tona para feder.
* do livro Memórias à Beira de um Estopim
por L. Rafael Nolli
segunda-feira, 11 de abril de 2011
UM POEMA-SINOPSE PARA O FILME “CÃO SEM DONO” de BETO BRANT
UM POEMA-SINOPSE PARA O FILME “CÃO SEM DONO” de BETO BRANT
duas perspectivas:
a dele, aleatória, ou
sem palmas ao desejo
a dela, cheia de asas rumo
sabe-se lá aonde
se olham num apartamento
entre poucos móveis e um
vira-lata clássico
a esperança e a dor universal
perpassa-os ali
poema:isaias de faria
domingo, 3 de abril de 2011
conto
Bia e Miloz são amigos desde os 12. Agora, com 38, quase não se encontram.
Miloz é meio baixo, tronco largo, sisudo quase sempre.
Bia tem voz suave, pausada, doce como a própria aparência da face, cabelos curtíssimos, olhos grandes e negros.
Bia trabalha no TRE.
E Miloz lá está perdido, mas encontra o guichê e:
- Que surpresa, Bia! Vim aqui pra...
-Já sei, miloz, te conheço, “pra poder participar da farsa eleitoral”.
-é, mas amadureci um pouco, sei elaborar melhor as ideias. Antes era jargão decorado mesmo, como esse que você citou.
-Tô brincando, vejo que você amadureceu, até pelo modo de se vestir.
-Esqueça! Depois do expediente podemos sair. Tanto tempo sem nos vermos né?
Passava das 23h, os dois já estavam na décima rodada e precisariam acordar bem cedo. Mas Bia bebia e balançava a cabeça, o pescoço, os quadris, o corpo todo em sintonia com a música frenética, e falava ao mesmo tempo de toda aquela euforia:
- Será que a dança é algo pra fazer a gente não se envelhecer?
- Essas músicas do Franz Ferdinand convidam para movimentos de braços e pernas, não?
- É... acho que você concorda comigo.
isaias
Miloz é meio baixo, tronco largo, sisudo quase sempre.
Bia tem voz suave, pausada, doce como a própria aparência da face, cabelos curtíssimos, olhos grandes e negros.
Bia trabalha no TRE.
E Miloz lá está perdido, mas encontra o guichê e:
- Que surpresa, Bia! Vim aqui pra...
-Já sei, miloz, te conheço, “pra poder participar da farsa eleitoral”.
-é, mas amadureci um pouco, sei elaborar melhor as ideias. Antes era jargão decorado mesmo, como esse que você citou.
-Tô brincando, vejo que você amadureceu, até pelo modo de se vestir.
-Esqueça! Depois do expediente podemos sair. Tanto tempo sem nos vermos né?
Passava das 23h, os dois já estavam na décima rodada e precisariam acordar bem cedo. Mas Bia bebia e balançava a cabeça, o pescoço, os quadris, o corpo todo em sintonia com a música frenética, e falava ao mesmo tempo de toda aquela euforia:
- Será que a dança é algo pra fazer a gente não se envelhecer?
- Essas músicas do Franz Ferdinand convidam para movimentos de braços e pernas, não?
- É... acho que você concorda comigo.
isaias
Assinar:
Postagens (Atom)