domingo, 3 de abril de 2011

conto

Bia e Miloz são amigos desde os 12. Agora, com 38, quase não se encontram.
Miloz é meio baixo, tronco largo, sisudo quase sempre.
Bia tem voz suave, pausada, doce como a própria aparência da face, cabelos curtíssimos, olhos grandes e negros.
Bia trabalha no TRE.
E Miloz lá está perdido, mas encontra o guichê e:
- Que surpresa, Bia! Vim aqui pra...
-Já sei, miloz, te conheço, “pra poder participar da farsa eleitoral”.
-é, mas amadureci um pouco, sei elaborar melhor as ideias. Antes era jargão decorado mesmo, como esse que você citou.
-Tô brincando, vejo que você amadureceu, até pelo modo de se vestir.
-Esqueça! Depois do expediente podemos sair. Tanto tempo sem nos vermos né?
Passava das 23h, os dois já estavam na décima rodada e precisariam acordar bem cedo. Mas Bia bebia e balançava a cabeça, o pescoço, os quadris, o corpo todo em sintonia com a música frenética, e falava ao mesmo tempo de toda aquela euforia:
- Será que a dança é algo pra fazer a gente não se envelhecer?
- Essas músicas do Franz Ferdinand convidam para movimentos de braços e pernas, não?
- É... acho que você concorda comigo.





isaias

quinta-feira, 17 de março de 2011

2 haicais


antiga pasta brancocinza
manchada de café -
guardam haicais



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Perco-me muito
e só me encontro
num átimo de segundo





haicais e foto: isaias

terça-feira, 15 de março de 2011



o poeta ricardo aleixo junto com outros artistas estão com esse belo e criativo projeto. bh precisa disso.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

impasse


quando

o silêncio

assombra

a palavra

que pensei

não sei

se insisto

em dizer

o perdido

ou se hesito

ante o risco

de me perder

outra vez





poema: maria esther maciel
foto: isaias

PRODÍGIO - poema de charles simic


Cresci dobrado sobre
um tabuleiro de xadrez.

Adorava a palavra check-mate.

Todos os meus primos pareciam preocupados.

Era uma pequena casa
perto de um cemitério romano.
Aviões e tanques
sacudiam o vidro das janelas.

Um professor de astronomia reformado
ensinou-me a jogar.

Isto deve ter sido em 1944.

No tabuleiro que usávamos,
a tinta estava quase lascado
nas partes pretas.

O Rei branco estava em falta
e teve que ser substituído por.

Disseram-me, mas eu não acredito
que nesse verão testemunhei
homens pendurados em postes telefónicos.

Lembro-me da minha mãe
vendar-me muito os olhos.
Ela tinha um modo de enfiar a minha cabeça
de repente sob o seu casaco.

Disse-me um professor que no xadrez,
os mestres também jogam de olhos vendados,
os maiores deles em vários tabuleiros
ao mesmo tempo.

(1980)